Artigos, Terapias Integrativas

A Importância do Autocuidado para Melhor Cuidar

Em vários hospitais, ambulatórios, postos de saúde e instituições terapêuticas do Brasil já ouvimos falar do projeto: Cuidando do Cuidador. Este projeto tem o objetivo de sensibilizar, levantar demandas e desenvolver ações que promovam o autocuidado integrativo, bem como a qualidade de vida e de trabalho daqueles profissionais de saúde que cuidam de nós, dos nossos familiares e amigos, até mesmo dos nosso pets nos momentos em que mais precisamos.

Nada mais justo do que promover este cuidado carinhoso aos profissionais que, antes de formarem-se médicos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos, psicoterapeutas, pedagogos, técnicos em saúde, fisioterapeutas, entre outros, são seres humanos como nós, cuja realidade de trabalho comporta um dos maiores índices de estresse, síndromes de Burnout, depressão, ansiedade, entre outros problemas psicológicos muitas vezes renegados.

Agora, imagine uma realidade como esta em meio a um cenário de pandemia? Temos a ilusória percepção de que esses profissionais são super-homens ou super-mulheres, capazes de carregar os pacientes e o mundo nas costas, quando na verdade, por trás desta errônea impressão, postura ou mesmo “armadura” adquirida em função do trabalho desempenhado, escondem-se problemas profundos. Por ter tido a experiência de trabalho numa instituição para deficientes físicos, com casos leves a graves, é nítida e imperiosa a necessidade do autocuidado para melhor cuidar.

Como resultado deste projeto, além das Práticas e Terapias Integrativas em saúde – que podem ser utilizadas como ferramentas complementares aos tratamentos terapêuticos para cada caso – também existem encontros intitulados “Cuidando do Cuidador”, que visam possibilitar um maior contato com estratégias preventivas de autocuidado àqueles que cuidam de outrem ou de um grupo.

Algumas instituições ampliam este trabalho para profissionais da área da educação, da gestão de pessoas, da terapêutica integrada, da veterinária, como também para voluntários no cuidado de pessoas idosas, de crianças, de deficientes físicos, com câncer ou doenças graves, em momentos críticos ou de emergências.

Encontros e projetos como este podem ser uma ferramenta muito positiva também para alguém que esteja cuidando de um familiar ou que tenha a necessidade de estar cuidando de alguém o tempo todo. Alguns estabelecimentos realizam encontros gratuitos e abertos ao público – procure na sua região dentro do Sistema Único de Saúde e através de instituições psicoterapêuticas públicas – da mesma forma que ações são desenvolvidas em órgãos privados.

Enquanto profissão reconhecida, o cuidador de idosos, de crianças, de pessoas com deficiência e com doenças raras, foi regulamentada pelo Senado em 2019. Mais detalhes sobre a regulamentação você encontra através do Projeto de Lei nº 11/ 2016 (PLC 11/2016) do Senado Federal. A regulamentação é um grande ganho para a categoria, uma vez que ficam muito claras as suas funções, bem como sua remuneração e direitos.

A profissão teve 550% de crescimento em dez anos, o maior índice segundo o Ministério do Trabalho. E contam apenas cuidadores formais que trabalham de carteira assinada. Contudo, sabemos que fora dos grandes centros urbanos muitos ainda atuam na ilegalidade. Segundo afirma Jorge Roberto Silva, presidente da Associação de Cuidadores de Idosos (ACI) de Minas Gerais, estima-se que o Brasil não tenha menos de 200 mil cuidadores. Neste momento de pandemia, é uma das profissões que mais crescem no Brasil.

Se você é um cuidador(a) e ainda não pratica ou não “prioriza” tempo para o seu bem estar físico, mental, emocional e espiritual, essas são algumas perguntas que podem nortear a sua percepção, a sua busca e a sua relação com práticas de autocuidado – as quais costumo sugerir dentro do meu trabalho de consultoria e atendimento terapêutico – para seguir por um caminho mais sadio, prazeroso e gratificante. Essas questões também podem servir àqueles que não são cuidadores de outras pessoas, mas que estejam no caminho do autoconhecimento e do autocuidado neste momento ainda desafiador para muitos.

  • Que estratégias de autocuidado você utiliza enquanto cuida de uma pessoa ou de um grupo?
  • Que ações de autocuidado você promove relativo a si mesmo(a), como cuidador(a), que podem servir de exemplo para o seu aperfeiçoamento e àqueles que auxilia?
  • Você é uma pessoa receptivo(a) para ser cuidado(a)?
  • Você tem um espaço para ser ouvido(a), compreendido(a) em suas aflições, ou uma pessoa de confiança que possa compartilhar seus conhecimentos, experiências e sabedorias?
  • Você é o que você é ou o que os outros esperam que você seja?
  • Você permite que as pessoas sejam o que são ou mostra o caminho que você acredita que seria o melhor para elas?
  • Você tem respeitado seus limites e seu ritmo interno, sua maneira de ser, de se relacionar?
  • Você tem mobilizado atenção e determinação para se conhecer, se aprimorar, vislumbrar e realizar seu propósito de vida? Para que a vida tenha valor e você se sinta parte integrante dela?
  • Como tem empregado o tempo para cuidar de si? Você se prioriza quando necessita? O que tem feito para se cuidar?

Quando algum profissional que desempenha a função de um cuidador ou mesmo uma pessoa com uma profissão que envolva alto grau de responsabilidade com a vida como: bombeiros, policiais, seguranças, entre outros – menciona que não tem tempo para cuidar de si, trago essa resposta como reflexão: “Se você tem tempo para tomar banho, alimentar-se e escovar os dentes todos os dias, então, você também pode organizar sua rotina para ter tempo para cuidar de si. E como você terá condições de cuidar do outro se não cuida de si?” Basta priorizar essa ação como todas as outras funções básicas da rotina.

Precisamos encarar isso como uma necessidade. A complexidade de organizar este tempo está na crença e nos ensinamentos que recebemos de que precisamos sempre priorizar outra coisa antes do nosso autocuidado – e como é fácil seguirmos por esse caminho numa sociedade que nos exige tudo “para ontem”! Como cuidadores, precisamos estar fortes, equilibrados e em dia com o autocuidado para cuidarmos de outros.

A SÍNDROME DO CUIDADOR

É de costume nas famílias em que é necessário ajudar um idoso, o pai, a mãe ou ambos, algum dos filhos ou filhas se converter em cuidador direto. Se não paramos para refletir um pouco sobre como enfrentar esta situação, podemos sofrer da Síndrome do Cuidador: um estado de ansiedade, tristeza e esgotamento produzidos pelo stress continuado que acompanha a pessoa que se encarrega de cuidar da outra.

A Síndrome do Cuidador é um estado emocional de ansiedade, tristeza, sobrecarga e esgotamento produzidos pelo stress continuado que acompanha uma pessoa que cuida de outra. Sabe-se que não é fácil adaptar-se às mudanças que este tipo de situação exige. Queremos ajudar, pensamos que essa ação não vai ocupar muito tempo, começamos a cuidar com ânimo e energia. Mas, com o passar do tempo, não se dá conta da realidade, das mudanças que vão surgindo sem que tenhamos nos preparado para elas.

Alguns dos sintomas que podem indiciar o início dessa síndrome e, posteriormente, levar a uma síndrome de Burnout, que geralmente age silenciosamente até o esgotamento completo, são:

  • A dinâmica familiar altera-se (a pessoa deixa de lado o seu real papel na família, onde a função de cuidador passa a ocupar a maior parte do seu tempo e da sua energia).
  • Não consegue ter tempo para os relacionamentos afetivos e sociais, muitas vezes deixando de lado também o lazer e a própria rotina de autocuidado.
  • Há a sensação de que se está gerenciando duas casas.
  • O tempo pessoal divide-se, diariamente, entre os pais e a família ou o relacionamento atual, com dificuldade de estar totalmente presente em ambos os cenários.
  • Assume-se cada vez mais responsabilidades, há uma sobrecarga física, mental e emocional.
  • Há o distanciamento de si, das suas necessidades.

A pessoa que se enquadra neste cenário sente-se esgotada física e emocionalmente pela situação, emocionalmente instável, com alterações de humor. Sente-se triste, ansiosa, tem dificuldades em adormecer, dores corpóreas, perda de apetite, irritabilidade, menos paciência e tolerância, podendo surgir conflitos e brigas com outros membros da família ou com os demais cuidadores.

Nesse contexto, é preciso ser realista e manter um espaço reservado só para si, onde seja possível regenerar-se e equilibrar-se sempre que possível, porque não se sabe durante quanto tempo alguém dependerá do nosso cuidado. A sensação de dever e de obrigação faz com que muitas pessoas não desfrutem do seu tempo livre.

CONSELHOS PARA EVITAR A SÍNDROME

No setor da saúde, já há uma consciência generalizada sobre o assunto, com indicações bem definidas sobre como “cuidar do cuidador”. Seguem alguns conselhos-chave que podem ajudá-lo a gerir melhor suas emoções:

  • Assuma a situação: em primeiro lugar, aceite que não é nem nunca vai ser fácil. A situação vai progressivamente requerer mais tempo e dedicação. Se não nos centrarmos e não tivermos em conta as nossas próprias necessidades, podemos acabar por precisar de ajuda também. Lembre-se: você é um ser humano igual àquele que requer cuidados.
  • Você não é uma super-mulher ou um super-homem (essa é outra síndrome conhecida, sobre a qual muitos terapeutas e psicólogos abordam). Seja realista sobre até onde você pode chegar. Reconhecer os seus limites é saudável. Aceite que a sua vida vai mudar e que não consegue fazer tudo sozinho.
  • Evite negligenciar o seu tempo de ócio criativo e de lazer, na medida do possível. Faça planos a curto prazo. Como digo para aqueles que estão neste caminho: um passo de cada vez com firmeza.
  • Reserve tempo para si e para sua família ou relacionamento todas as semanas, o tempo que está normalmente dedicado à pessoa que está a seu cargo.
  • Encontre-se de tempos em tempos com outros cuidadores, se existirem, e estabeleça um horário realista para enfrentar as necessidades que possam surgir.
  • Peça ajuda: você não é o melhor cuidador do mundo, evite o pensamento de que ninguém vai conseguir ser tão bom cuidador como você.
  • Mantenha a sua independência e autonomia emocional com relação à pessoa que cuida. Não se exceda.
  • Ninguém exige que você seja o cuidador perfeito, é suficiente ser um bom cuidador. Não tem de se negligenciar para cuidar bem de outra pessoa. [Aqui deixo uma reflexão: ninguém precisa do seu sacrifício para sobreviver. É através da vida equilibrada que gera para si que será capaz de auxiliar outro a buscar e atingir o seu próprio equilíbrio].
  • Fale sobre o que está acontecendo com alguém: quais são os seus medos e as suas necessidades. Se precisa de ajuda, lembre-se que o melhor é recorrer a um profissional capacitado, para saber como enfrentar melhor a situação e gerir as suas emoções da melhor forma.

Do meu ponto de vista terapêutico, qualquer função onde precisamos cuidar do outro requer de nós um grande preparo, disciplina e esforço, assim como um constante trabalho interior, uma vez que sem capacitação adequada, atualização profissional e práticas de autocuidado, tendemos a nos envolver emocionalmente e mentalmente, gerando uma relação simbiótica de dependente e co-dependente que pode ser prejudicial para ambos: o cuidador e aquele que necessita de cuidados.

Com este artigo e reflexões, desejo que possamos seguir trabalhando e co-criando juntos uma terapêutica de cuidado com mais humanidade, tanto para o cuidador quanto para aquele que é cuidado. Aquele que cuida bem de si sabe como cuidar melhor dos outros. Namaste!

Dica de Filmes sobre o tema! Super recomendo estas duas obras maravilhosas: Intocáveis (The Intouchables – 2011) e Mais que Especiais (The Specials – 2019), ambos dos mesmos diretores: Olivier Nakache e Éric Toledano, baseados em fatos reais. Prepare o coração!

Fontes complementares: 1. Artigo da Revista Arte Médica Ampliada: “Autocuidado para melhor cuidar”- Rômulo de Mello Silva, Médico Antroposófico | 2. Guia Prático do Cuidador – Ministério da Saúde do Brasil | 3. Interconexão entre Autocuidado e Autogestão | 4. Abordagens da Gestalt-Terapia sobre o Autocuidado | 5. Extra Globo.com | 6. Projeto de Lei nº 11/2016 – Senado Federal

Luciane Strähuber – Educadora, Consultora e Terapeuta Integrativa

Quer investir no seu autocuidado, no seu fortalecimento interior e na sua autorrealização? Entre em contato e agende uma Consultoria Terapêutica. Terei o prazer em poder ajudá-lo(a) nessa jornada!

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