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Ensinamentos sobre Casais: Vocês estão falando a mesma língua?

Foto por Andre Furtado em Pexels.com

Esse é um assunto recorrente na terapia de casais, às vezes parecendo não haver solução para o impasse que ocorre na rotina diária conjugal. E assim, a velha e conhecida frase vem à superfície: “Parece que não falamos a mesma língua!”.

Essa é uma expressão muito comum que ouvimos daqueles que estão enfrentando dificuldades no relacionamento. Na verdade, essa é uma boa constatação sobre o que pode estar acontecendo, um sinal de que alguma peça não está “encaixando” no quebra-cabeças da vida a dois. Trazer a clareza e a compreensão sobre os porquês dessa desarmonia pode ser a chave para encontrar um ponto de equilíbrio, percebendo o desafio que se enfrenta quando um relacionamento dá origem a uma nova família.

Todos nós viemos de um sistema familiar: trata-se de um pai e de uma mãe que se encontram e trazem consigo toda uma carga de experiências familiares. Como a constelação diz: nós somos o resultado de muitos que vieram antes. Nós, o resultado deste sistema que passou por muitas gerações, possuímos as culturas, ideias, crenças, valores e significados que compõem a nossa família de origem. Foi com ela que aprendemos a decodificar emoções, sentimentos, pensamentos, relações.

Foi nesta família que pudemos observar primeiramente o que é um relacionamento, a partir das experiências que presenciamos em nossa casa. Aprendemos, dentro do que era a nossa realidade e com tudo que o que fez parte deste sistema de origem, uma linguagem sobre as relações que levamos para o mundo. É com ela que iremos decodificar e compreender o que vamos vivenciar com nosso(a) parceiro(a) posteriormente. Não respeitar esse movimento, ou seja, querendo impor “o que é certo” para o nosso sistema no relacionamento com o parceiro(a), pode ser uma das origens de muitas dificuldades do casal.

Foto por Andrea Piacquadio em Pexels.com

Sistemas familiares diferentes

Então, conhecemos essa outra pessoa – ou melhor, nos sentimos atraídos por ela por razões que desconhecemos. Inicialmente, nós já sabemos que há algo que nos atrai. Mas, não é possível vermos tudo aquilo que a conduz – até porque nessa fase de conquista ainda não teremos visto e nos relacionado com “a sombra” do parceiro(a) – mas sentimos claramente que algo nos atrai e que o desejamos perto de nós.

À nossa semelhança, ele também é fruto de um sistema familiar no qual presenciou toda uma gama de emoções, afetos, valores, cultura, mas que, possivelmente, foi bem diferente daquilo que nós recebemos. Por essa razão, nesse primeiro encontro, tendemos a estar dialogando com “a máscara” de cada um, afinal vamos precisar provar que somos um parceiro(a) melhor do que outros no caminho.

Essa pessoa também leva para o mundo tudo aquilo que se tornou referência para ela: a forma como os pais se relacionavam, o que foi presenciado e vivenciado na família em relação ao afeto, ao amor, as histórias e aos acontecimentos que foram marcantes de alguma maneira, tendo sido essas experiências agradáveis ou traumáticas.

Tudo isto compõe a linguagem dessa pessoa para decodificar seus relacionamentos. Quando os dois se encontram, precisam descobrir uma maneira de integrar as linguagens que cada um carrega para estarem na mesma sintonia. Assim como, nesta primeira fase de descobertas, haverá a tendência de apreender apenas uma parte da linguagem que o outro carrega. À semelhança de uma nova língua, precisamos de tempo e paciência para aprendê-la.

Foto por Arthur Brognoli em Pexels.com

Companheiros não disponíveis

O que observamos nas constelações é que o campo familiar e a linguagem de cada parte de um relacionamento é determinante para o percurso realizado pelo relacionamento do casal. Além dos elementos mais superficiais, cada parte carrega em seu íntimo um vínculo muito próximo de sua família de origem, o que significa uma lealdade profunda e, na maioria das vezes, invisível ou inconsciente.

É esta lealdade que faz com essa pessoa ou nós mesmos estejamos emaranhados em questões que são anteriores à relação, que fazem parte da família de origem. Além disso, nós podemos também estar presos em um vínculo profundo de um outro relacionamento amoroso ou afetivo, mesmo que ele já tenha acabado.

Bert Hellinger, o criador da dinâmica de Constelação Familiar Sistêmica, menciona que esses laços, primeiramente com nosso sistema de origem e mais adiante com relacionamentos anteriores, são presentes em nossa vida mesmo quando as pessoas não fazem mais parte dela de forma concreta – aqui também faço uma observação aos que faleceram, isso porque uma vez existiram na linha temporal da nossa vida. E tudo o que um dia viveu, também pertence à nossa história pessoal.

Isso acontece porque vínculos não se desfazem tão facilmente. Muitas separações de casal ocorrem apenas pelo afastamento dos corpos ou pela mudança de casa, enquanto ambos permanecem ligados emocionalmente por algo que não ficou bem resolvido internamente. Outras vezes, nem sequer terminam completamente – principalmente casais que conviveram por muito tempo juntos ou através dos quais filhos foram gerados. Por isso, é necessário olhar para essa presença do outro com respeito para que o novo possa entrar, existir e fluir.

Reconhecer, honrar e ser grato(a) pelos relacionamentos anteriores vividos, mesmo que não tenham sido duradouros ou que não tenham sido “um mar de rosas”, é uma forma de abrir espaço para que o novo possa ter o seu lugar de forma mais fluídica e harmônica. Esse exercício pode levar tempo dependendo do histórico de cada um, apenas dizer que se aceita e se perdoa não basta – esse é um movimento não mental, de dentro para fora – embora o maior aprendizado aqui é olharmos para o quanto crescemos, aprendemos e evoluímos com nossos parceiros(as) anteriores.

São nos relacionamentos que somos testados em todos os nossos limites e fragilidades, defeitos e bloqueios, sombras e luzes, assim como em todas as nossas qualidades e talentos, desejos e anseios, objetivos e propósito, autonomia ou dependência. São esse vínculos do passado ou da família de origem que muitas vezes não permitem que as pessoas estejam disponíveis para novos relacionamentos. Enquanto não há consciência e clareza dos porquês de certas ações e crenças de nossa parte, tenderemos a repetir e projetar no relacionamento com o companheiro(a) os padrões de pensamento, comportamento e emoções que herdamos, sorvidos passivamente do nosso seio familiar quando crianças.

Foto por Harrison Haines em Pexels.com

Casais com filhos

A partir dos filhos, o casal sacramenta um vínculo que agora se torna mais concreto. São neles que o que é trazido por ambos se unirá e se tornará um. Os filhos percebem internamente que são a materialização do laço entre essas duas pessoas: tal percepção atua no inconsciente deles. Da mesma forma que trazemos para o nosso relacionamento tudo o que recebemos pelos sistemas dos nossos pais, os filhos também serão influenciados pelos nossos laços e nossa história.

O mais importante é perceber que há duas dimensões do casal nos filhos: fazem parte deles o homem e a mulher, e também as funções de pai e mãe. Quando há crise no relacionamento, quando não se consegue falar a mesma língua, embora seja o homem e a mulher que estão se desentendendo, os filhos acompanham isso olhando para o pai e a mãe, recebendo passivamente aquele padrão de comportamento.

E, por isso, muitas vezes os filhos (principalmente quando mais novos) tomam as dores do relacionamento dos pais para si. Isso explica porque os momentos de crise são tão complicados para famílias. Os filhos tendem a demonstrar o conflito que há no casal ficando irritados, impacientes, teimosos, e isso gera ainda mais dificuldade em um cenário onde a tensão já é uma companheira.

Nessa roda das funções para o casal, também é importante saber separá-las e equilibrá-las. Comumente ocorre que muitas mulheres, após a vinda dos filhos, tendem a renegar a sua função “mulher”, seja porque lhes foi ensinado de que ser mãe é prioridade e requer sacrifícios, seja porque ela não consegue ver como essas duas importantes funções podem andar lado a lado e serem nutridas – certamente, ambos terão que aprender a ser mãe e pai, parceira e parceiro, não esquecendo de que antes disso são mulher e homem.

Foto por Matheus Alves em Pexels.com

Olhar a realidade: Criar e Integrar o Novo

Ter em mente que cada um no relacionamento possui sua própria gramática, saber integrar e permitir que o outro seja quem ele foi destinado a ser, além de construir juntos um caminho em comum, é uma jornada viável para desenvolver um relacionamento possível e verdadeiro.

Imagine que você vem de uma família que fala português, mas sua companheira vem de outro sistema familiar que fala japonês, como vocês pretendem decodificar um e outro no relacionamento? Um caminho é cada um aprender com o outro um pouco da sua própria língua, respeitando aquilo que nunca irá compreender no outro, mas criando a sua própria forma de comunicação: uma nova linguagem entre o casal. Da mesma maneira, respeitando a forma como o parceiro(a) dialoga com sua família de origem, mesmo que não seja igual à sua, e vice-versa. Isso porque ambos terão formas diferentes de se relacionarem com seus pais e familiares.

Nesse processo de aprendizado, respeito e aceitação, encontramos espaços para trocarmos vivências sadias com o nosso(a) parceiro(a), aprendendo a reconhecer as suas verdades interiores – saindo da “máscara” e sintonizando com o Self. Dessa forma, poderemos criar algo novo. Ao mesmo tempo, isso não significa um movimento de exclusão do que recebemos de nossa família e dos nossos antepassados, nem do que faz parte de cada um. Ao contrário, é um movimento criativo e integrativo, que abarca tudo que é, que aceita tudo de bom que foi recebido e herdado – desapegando do que foi doentio – assim permitindo que o casal consiga dar um passo adiante para que a relação continue progredindo.

Foto por Andrea Piacquadio em Pexels.com

Uma outra forma de avaliar como está o “termômetro emocional” entre o casal é verificar como estão estes três aspectos principais: os seus projetos pessoais, os projetos pessoais do parceiro(a) e os projetos que o casal tem em comum. Quando há muita energia sendo colocada apenas nos projetos pessoais de cada um, sem haver um projeto em comum onde um possa auxiliar o outro no seu progresso e evolução, é possível que ocorra um grande distanciamento dos companheiros e, mais adiante, uma possível separação.

A partir dessa avaliação básica, o casal é capaz de traçar um novo contrato ou acordo no relacionamento à medida que cada um for se conhecendo e, naturalmente, se transformando ao longo da vida – aquela frase de que “o casamento é uma sociedade” cabe como uma luva nesse contexto. Quanto mais tempo um casal permanece juntos, é necessário que existam muitos novos acordos, uma vez que somos mutáveis assim como a relação. E à medida que as prioridades forem se transformando com a convivência, a linguagem criada entre o casal lá no início também precisará evoluir.

Com isso, quando há filhos, neles se materializam os dois sistema envolvidos e se perpetuam tudo o que faz parte daquilo que move o casal a se encontrar, a se relacionar, a se unir e a construir juntos uma nova vida, a criar uma nova família. O núcleo familiar só existe devido ao que veio antes: olhar isso com amor e respeito é um bom segredo para manter o relacionamento saudável e superar as dificuldades de casal, mesmo que cada um fale uma língua diferente.

Por Luciane Strähuber – Educadora, Terapeuta e Consultora da Terapêutica Integrada

Fonte complementar dos livros: 1) “A Simetria Oculta do Amor” – Bert Hellinger | 2) “Para que o Amor Dê Certo: o trabalho terapêutico com casais” – Bert Hellinger | 3) “As Ordens do Amor”- Bert Hellinger | Trechos e passagens do texto: Instituto Ipê Roxo – disponível em http://www.institutoiperoxo.com.br

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