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Redes Sociais: Como tornar-se independente desse vício?

Unindo o útil ao agradável, a dupla redes sociais + tecnologia virou vício para muitas pessoas. As tramas e conexões virtuais que inicialmente pareciam inofensivas, prometendo solucionar a sua vida com pessoas que você conheceu e gostaria de interagir, em dar um “up” na sua carreira e no seu negócio, hoje geram debates preocupantes em várias áreas de pesquisa da saúde e do comportamento humano.

Para ilustrar essa realidade, um fotógrafo dos Estados Unidos chamado Eric Pickersgill, após ter passado por uma situação que o fez repensar a forma como estava distante de sua esposa e viciado no seu celular, decidiu fazer um ensaio fotográfico que foi matéria da BBC News Internacional.

Com o título “Removed“, o objetivo do projeto foi trazer um novo olhar de percepção da realidade, mostrando o quanto os celulares estão cada vez mais isolando as pessoas e o quanto ainda estamos despreparados para lidar com tamanha hiperconectividade. Para isso, pediu que amigos e conhecidos realizassem suas atividades rotineiras como se de fato estivessem com o celular, só que sem o aparelho nas fotos. O resultado é o que você vê em algumas fotos postadas.

Segundo sua palestra no TEDX – assista ao vídeo no final do artigo – Eric não esperava que seu projeto impactasse de forma tão positiva tantas pessoas, possibilitando mudanças de hábitos e comportamento para uma vida mais saudável e mais harmoniosa na rotina (Série completa das fotos: acesse aqui).

Foto: Erick Pickersgill

A reflexão que um projeto como esse gera é: será que precisamos estar cada vez mais isolados, viciados em nutrir uma vida virtual quando a vida pessoal precisa de atenção? Será que essa história de ter que estar hiperconectado 24h por dia é mesmo uma necessidade? Ou será que essa foi uma ideia transformada em necessidade?

Aos que atentos observam, profissionais de grandes empresas estão deixando de lado o investimento nas redes sociais para investir no seu negócio de forma mais humanística e verdadeira. Existem caminhos alternativos para investirmos em comunicação, divulgação e posicionamento correto de uma marca, pessoa, produto ou serviço mesmo fazendo uso de algumas redes sociais – conforme o tipo de público – embora sem a necessidade de depender delas.

As redes sociais, nesse contexto, são apenas uma vitrine, só que cada vez mais poluídas e dispersas perante a informação que desejamos comunicar ou mesmo ler, já que estamos cada vez mais reféns das suas regras: as inúmeras páginas online que certamente você não vai ler sobre os Termos, Políticas e Condições de Uso – ou ainda as comunidades e páginas que você não vai ver porque algum algoritmo entende que não faz parte do seu perfil.

Não há como negar que essas plataformas fazem parte da rotina. E quem atua com home office tem um desafio ainda maior. Contudo, você não precisa estar em todas elas ao mesmo tempo. É aqui que reside o questionamento quanto à necessidade, seja para você que quer ler e acompanhar coisas que gosta, seja para oferecer um produto ou serviço. Precisamos estar atentos ao que nos é oferecido, quando na verdade essa necessidade criada pode ser vazia de comprometimento, significado e relacionamento verdadeiro.

Foto: Erick Pickersgill

Pergunte-se, por exemplo, o que você está ganhando em disponibilizar todos os seus dados pessoais numa plataforma gratuita? Quem é o produto nesse caso? Você está tendo algum retorno financeiro com isso ou apenas “likes”? Para onde estão indo seus dados e o que é feito com eles? Como você acha que pequenas empresas tornam-se bilionárias em poucos anos?

Se você deseja fazer parte dessa onda, sem dúvida sua escolha e opinião devem ser respeitados. O único intuito aqui é incitar nosso observador interno quando tentam levar nosso olhar para outra direção, numa relação virtual que deveria ser a de doar e receber, uma troca genuína. Mas o que temos visto é uma relação de uma via, onde apenas um doa e o outro recebe.

Com a quantidade de aplicativos sendo lançados e atualizados a cada segundo, a “impossível vontade de estar sempre em dia” gera uma sobrecarga e dependência, inclusive para passar o tempo. Quem está dentro dessa onda sabe que é praticamente impossível dar conta de todas as notícias e novidades. E o mais alarmante, por não conseguirem dar conta, as pessoas estão simplesmente se ausentando, muitas vezes de si mesmas.

DADOS E PESQUISAS

Estudos mostram que a tela do celular é vista ou desbloqueada, em média, a cada oito minutos – ou seja, 150 vezes por dia! E quanto essa “dependência” afeta diretamente nossas relações pessoais?

Um estudo realizado pela Universidade de Baylor, nos Estados Unidos, mostrou que 46,3% dos usuários de smartphone dizem que ele afeta negativamente seus relacionamentos. A mania de focar no celular, levá-lo para cama, tomar banho, jantar com ele e ignorar o parceiro recebeu até um nome próprio pelos especialistas: phubbing! Uma mistura de “phone” (telefone) e “snubbing” (esnobar).

De acordo com o autor do estudo, professor James A. Roberts, o nível de phubbing de um casal está diretamente relacionado ao nível de satisfação com o relacionamento, conforme descreveram 453 participantes da pesquisa.

A conclusão? Quanto mais conectados à tecnologia, maior a insatisfação! “As pessoas sentem solidão ao ver o parceiro se isolar num aparelho e ignorar sua presença”, disse. “Esse hábito está, de fato, colocando muitos casamentos em risco”.

COMUM ACORDO

Para não deixar que as redes sociais afetem seus relacionamentos é primordial que você reserve um tempo para si, para seu parceiro ou parceira, para seus amigos e família – literalmente “desligar a mente do celular” para estar presente com aqueles que são importantes.

Você pode criar algumas regras informando seu parceiro ou parceira, seus clientes, amigos e pessoas que gosta, lembrando sempre que o benefício deve ser para ambos e não somente àquele que se sente ignorado pelo celular.

Você pode definir algumas regras como: nada de celular na mesa do jantar; notificações de whatsapp, instagram e face desativadas ao chegar em casa; aparelho desligado na hora de dormir; celular no “modo avião” quando estiver fazendo alguma atividade física, meditando ou mesmo numa aula de yoga. O que mais importa para você se sentir bem? Você define. Assim, voltamos a ter uma troca saudável e equilibrada com quem convivemos, sem que nos tornemos “automatizados”, quase no piloto automático.

Para o professor James Roberts, uma atitude infalível dentro dos relacionamentos é sempre avisar o parceiro quando for para o celular ou tablet, principalmente informar porque é tão importante recorrer ao smartphone naquele momento. “Isso fará com que primeiro, o acesso não seja puramente automático e segundo, que o outro não se sinta desmerecido”.

Outra dica importante é se policiar ao máximo quanto as famosas “espiadinhas”. E se a atitude a dois já é um desafio com essa hiperconectividade, os riscos aumentam ainda mais para quem tem filhos. Eles são um espelho dos pais e acabam se viciando nos celulares e tablets quando veem que podem trocar a responsabilidade familiar pela tecnologia.

QUANDO VIRA VÍCIO

A palavra “vício” parece exagerada? Pois essa ansiedade que muita gente sente quando está longe do aparelho já é considerada doença e tem até nome: nomofobia – do inglês, no mobile phobia ou fobia sem celular. No Brasil, o tema ainda é pouco explorado, mas existem clínicas especializadas em dependência digital nos Estados Unidos, Itália e Reino Unido. 

Em casos mais extremos as pessoas super ligadas ao celular passam a apresentar um sintoma chamado de “toque fantasma”, quando acham que ouvem o telefone tocar ou o sentem vibrar, mesmo sem ter acontecido. E não é preciso nem imaginar o desespero quando o celular quebra ou quando a bateria acaba.

Outro estudo americano, agora realizado pela Flurry Analytics, mostrou que o número de pessoas consideradas viciadas em smartphones no mundo cresceu 60% entre 2014 e 2015. Hoje, são quase 280 milhões com essa dependência, contra 176 milhões em 2014.

A verdade é que, viciados ou não, as redes sociais afetam e muito os relacionamentos, porque mal percebemos o tempo passando e, principalmente, as pessoas à nossa volta. Esse estado de consciência alterado é conhecido pelos psicólogos como “experiência de fluxo” e pode facilmente ser comparado com jogadores de xadrez que dedicam extrema concentração e tempo àquilo que mais lhes dá prazer.

Outros estudos estão detectando que esse vício afeta partes do cérebro que o torna 10 vezes mais poderoso do que o uso de cocaína – informação do documentário que sugiro ao final do artigo.

Já conforme o Instituto Delete – organização do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ) – a dependência digital não está diretamente relacionada ao tempo de conexão de uma pessoa aos seus dispositivos eletrônicos, mas sim ao nível de perda de controle na vida real, trazendo prejuízos nos campos profissional, familiar, afetivo ou social. O vício em smartphones e redes sociais pode ficar sério. Avalie os estágios da dependência:

  • EXCITAÇÃO: Tentativa de esquecer problemas pessoais, buscando a tecnologia como um meio melhor ou mais seguro.
  • RELEVÂNCIA: Importância que dá à necessidade de se conectar e usar dispositivos.
  • TOLERÂNCIA: Perde o controle e substitui os programas reais do dia por maior tempo na tecnologia.
  • ABSTINÊNCIA: Quando não estão conectados ou não conseguem usar certos dispositivos ou aplicativos, tornam-se irritados, ansiosos e com medo.
  • CONFLITO. Quando o uso excessivo compromete as relações na vida real.

Enfim, fazer parte das redes sociais sem depender nos exige limite, autocontrole e também autoamor. Em qualquer tipo de terapia, aprendemos que o limite é necessário para que não haja dependência. E o mais importante: a vida está aqui para ser vivida, compartilhada com as pessoas que gostamos e amamos, e isso requer que estejamos presentes no momento.

A vida passa e dela vamos levar os momentos vividos e as memórias que ficaram deles, onde exercitamos a nossa presença e o aprendizado acumulado, a felicidade compartilhada e a sabedoria adquirida com a experiência. Aquela velha e sábia frase cabe muito bem aqui: “a felicidade só faz sentido quando compartilhada!”

Por Luciane Strähuber – Educadora da Terapêutica Integrada

Fonte complementar: 1. Site oficial das fotos de Eric: https://www.removed.social/series | 2. Referência dos dados de pesquisa do site da jornalista Fabiana Scaranzi | 3. BBC News Internacional: US & Canadá | 4. Sugestão de documentário sobre o vício das redes sociais e o impacto social: Public Figure | 5. Mais Informações, testes e apoio à dependência pelo Instituto Delete: http://www.conectecomunicacao.com.br/home/instituto-delete | 6. Vídeo do fotógrafo Eric no TEDX (apenas em inglês).

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