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Quem é você quando ninguém está olhando? Qual sua Razão de Ser?

Tempo de leitura: 14 a 20 minutos

Um exercício que costumo utilizar muito nos processos terapêuticos – e também nos trabalhos de consultoria – enquanto ferramenta auxiliar no reconhecimento e na construção de uma identidade pessoal é o IKIGAI. Essa palavra de origem japonesa significa “Razão de Ser” – adapto o termo incluindo a pergunta: qual o seu sentido de vida? A partir do gráfico a seguir, temos como ponto de partida um direcionamento mais claro para que você encontre ou esteja mais próximo do seu propósito. O conceito de IKIGAI é introdutório, isso porque você certamente vai precisar experienciar e tirar da mente o que vai planejar.

Contudo, ele auxilia nesta busca como um norte, permitindo uma visão mais definida e apontando o equilíbrio que precisa residir entre as suas habilidades e dons, seus conhecimentos natos/ adquiridos e as atividades que você ama fazer, no que você é bom em fazer, o que você pode ser pago para fazer e o que o mundo precisa agora que você pode oferecer.

Geralmente, algumas pessoas acreditam que essa ferrameta serve somente para jovens, mas o que percebo ao longo de vinte anos de trabalho é o quanto esse conceito se aplica a adultos, seja para os que estão passando por uma crise existencial ou “crise da meia idade”, uma mudança de prioridades na vida ou uma transição de carreira, saindo da zona de conforto ou simplesmente decidindo que certas coisas e situações não condizem mais com a realidade que desejam viver; seja para outros que já viveram e conquistaram o que queriam, mas chegam em certa idade percebendo que nunca tiveram um sentido, uma razão de ser em suas vidas.

Esta interconexão de fatores é uma ferramenta para você nortear a sua identidade dentro do seu propósito, seja ele pessoal ou profissional. E aqui entra um conceito importante: como descobrir meu propósito e saber para onde ir se não sei quem sou? Vamos por partes!

Para definir seu IKIGAI, responda essas perguntas:

  • O que eu gosto, me identifico e amo fazer?
  • No que eu sou bom(a)? O que eu sei fazer bem feito? (Você pode iniciar a resposta dessa pergunta observando e relatando seus dons, talentos e qualidades natas, podendo incluir características potenciais da sua personalidade e inteligência).
  • O que eu posso ser pago(a) para fazer?
  • O que o mundo precisa agora que posso oferecer?

PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO E INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Depois de responder as perguntas e definir o seu IKIGAI, procure especializar o seu alvo para que você tenha mais foco e precisão antes de atirar a flecha. Lembrando: quando temos claro o alvo, fica mais fácil focalizar a energia para um objetivo específico – a energia precisa de um caminho – ao invés de vários alvos que podem comprometer o seu sucesso no alcance do que você deseja. Mesmo que leve tempo, você sabe que está no caminho sem desperdiçar suas flechas: mais confiança, menos dúvidas.

Objetivo principal: defina o que move você e faz o seu coração vibrar. Este objetivo é construído a partir de todos os itens que você respondeu no seu IKIGAI. Sugiro unir todas as respostas e delas criar o seu objetivo principal. Este será o seu propósito, o norte da sua bússola.

Se você já tem claro qual será o seu propósito, está desejando mudar algo em si ou está realizando uma transição de carreira, por exemplo, mas precisa definir a identidade pessoal ou empresarial para organizá-lo, o IKIGAI vai funcionar como uma raiz por onde podem partir o tronco e os galhos do seu objetivo. As respostas acima estarão sendo a base para a construção do tronco, à semelhança de uma casa que precisa do alicerce até iniciar o processo de a erguer as paredes.

RECONHECENDO E CONSTRUINDO SUA IDENTIDADE

(Quem Sou Eu para definir o Meu propósito e para Onde Vou)

Algumas perguntas além das citadas acima podem ajudar:

  • Como eu me vejo? Quais as características e qualidades que reconheço em mim? Como posso usá-las ao meu favor na rotina diária, nos relacionamentos, no trabalho, nos ambientes onde frequento e com quem convivo?
  • Como os outros me vêem? Quais são as características e qualidades adequadas à minha pessoa quando os outros falam ou comentam a meu respeito? (Você pode pedir feedback de familiares, amigos, funcionários e clientes sobre você e seu trabalho, por exemplo. Isso ajuda a complementar a construção de uma parte dessa visão sobre si e o seu propósito.
  • Para cada característica e qualidade citada, inclua ao lado: onde e de que forma você pode usá-la nas áreas da sua vida. Pode ser que as características e qualidades que você enxerga em si assemelhem-se com àquelas sobre as quais as pessoas que convivem com você também descrevem.

Caso você não encontre um lugar para todas elas, tudo bem. Leve o tempo que for necessário nesse inventário sobre si. Estaremos trabalhando e refletindo juntos agora para dar a cada uma um lugar dentro de você, para que externamente elas possam ser reconhecidas e tenham um papel numa engrenagem maior. Essas associações ajudam a construir uma imagem interna de quem você é baseado naquilo que você tem de melhor para oferecer.

Aqui menciono: o que você tem de melhor, pois geralmente o “Não” já temos dentro de nós. Estamos em busca é do Sim. Este sim representa tudo aquilo que você precisa reconhecer, valorizar e agregar dentro do seu propósito. Valorizar significa dar valor, dar uma função. Se não vejo razão e valor em ser paciente, disciplinado e persistente para atingir meus sonhos e objetivos, por exemplo, se me cansa sair da zona de conforto, possivelmente estarei gerando e criando ao redor atitudes de procrastinação, menos valia e autosabotagem. Pois se não valorizo, não reconheço, e portanto, se não reconheço, não priorizo.

Por essa razão o reconhecimento dessas características é tão importante, assim como o fato de inclui-las na rotina mesmo que não agrade a todos: seja uma mudança na forma como você escolhe se vestir – incluindo um detalhe ou acessório que represente quem você é em essência – seja a forma como você se comporta e se comunica no seu meio social e no trabalho, ou mesmo as crenças que você possui sobre determinados assuntos.

O que realmente importa ao reconhecê-las é integrá-las à sua forma de ser, pensar, sentir e agir. Se antes não havia espaço para você ser quem você é ou, se até este momento você ainda se questiona e não tem tanta clareza sobre a sua real identidade e essência – porque passou muito tempo seguindo os ditames da sociedade, os moldes e crenças recebidos e absorvidos pelo modelo familiar, estando à serviço do que os outros queriam que fosse, pensasse ou fizesse – agora você está criando um espaço na sua psique, no seu subconsciente e no seu coração para que elas possam existir sem medo; possam germinar, crescer e com o seu trabalho interno de autocuidado e autoamor, florescer.

Isso significa dizer que, se desejamos fazer qualquer transição externa, vamos precisar olhar para dentro de nós. A mudança e metamorfose interna sempre acontece antes. E mesmo que você faça uma mudança externa sem a interna, o que está no exterior vai parecer vazio, com uma sensação de que algo está faltando. Essa é uma das razões pelas quais muitos sonhos, objetivos e projetos não vão adiante, fenescem antes mesmo de ganharem corpo e estarem fortes para nascer. Por quê? Porque você se esqueceu ou nunca foi ensinado de que tudo que criamos precisa de nutrição para nascer.

Menciono sempre que um sonho ou um projeto é como um bebê em fase gestacional. E se não trabalharmos nossas questões internas, as crenças que nos limitam, as emoções que nos travam e os traumas não resolvidos do passado, o velho ocupa o espaço do novo e não sobra energia para manifestar e concretizar aquilo que estamos criando. Numa analogia, vamos dizer que suas qualidade e características ligadas à sua inteligência e personalidade, seus dons e talentos e todas as respostas encontradas acima são como compostos vitaminados para que esta nutrição aconteça.

E como saber quando a sua identidade interior está forte o bastante para materializar um sonho, um objetivo ou projeto que vai vingar, ter sucesso e prosperar? Quando você ficar indiferente às comparações relativo às outras pessoas, quando o seu autoamor, autoconfiança e autoestima estiverem nutridos o suficiente para você encarar as dificuldades e imprevistos e, ainda assim, não perder a confiança em si. E quando você souber responder essa pergunta: quem sou eu quando ninguém está olhando? Essa é uma pergunta de um milhão de dólares, pois a resposta pode levar muito tempo, anos até, em meio a um processo de autoanálise e autoconhecimento, mesmo que você esteja fazendo algum tipo de terapia ou abordagem terapêutica.

Pensemos que essa resposta envolve o acesso à sua essência mais verdadeira, a tudo aquilo que eventualmente, devido ao seu histórico de vida, você precisou anular, renegar, reprimir, guardar ou abafar para agradar, para caber, para existir e respirar os ares por onde viveu. Nos exige tempo e dedicação porque é um processo profundo. Assim, não se preocupe com metas e datas, pois não há como colocar na agenda. Mas esteja atento sim ao fato de que tudo possui um ciclo de início, meio e fim. E à semelhança do reconhecimento e reconstrução dessa identidade, também haverá um ciclo sendo construído de forma sutil até que ela esteja bem formada e forte dentro de você.

Como saber quando isso começar a ocorrer? Quando a sua capacidade de manifestar as coisas para si começar a aumentar. Quando você começar a ter tempo para se priorizar, sabendo dizer não para poder dizer sim para si, reconhecendo os seus limites para poder impor limites saudáveis e da mesma forma, reconhecer os limites do outro. Quando o pensar e o sentir estiverem alinhados ao agir – ou seja, você aprende que não pode mais permitir que questões internas não reconhecidas e mal resolvidas ajam por você, desestabilizando e tirando a coesão entre o pensar e o sentir. Quando pensamos algo tendo claro o objetivo a conquistar, criar e materializar, mas sentimos de forma diferente, o agir vai ficar capenga, à semelhança de uma mesa onde falta uma perna para gerar equilíbrio.

É esse nó entre o pensar e o sentir que traz fracassos, projetos inacabados e deixados de lado, perda de oportunidades importantes em relacionamentos e trabalho, falta de energia para executar o que tanto se quer, procrastinação e autosabotagem. São como duas vozes que falam conosco internamente, mas nenhuma delas decide fazer alguma coisa. É como estar numa encruzilhada sabendo que precisa decidir por um caminho, mas não se sai do lugar. Então, reserve um tempo para olhar para você, para as questões mal resolvidas, para a bagunça e desordem que provavelmente a sua vida possa estar ou para coisas que você sempre quis fazer, que sabe o quanto fariam bem para você, mas que você foi sempre deixando de lado enquanto priorizava outras pessoas, compromissos e situações.

Portanto, identidade interior e manifestação de quem você realmente é criam prosperidade e estão totalmente conectadas ao quanto de nutrição você se dá. Essa energia que irá nutrir seus sonhos e projetos é o mesmo néctar que irá nutrir o seu autoamor, a sua autoconfiança e sua autoestima. Podemos observar que pessoas que não costumam agregar algo que gostam ou amam fazer em suas vidas geralmente não são bem humoradas – e falo do bom humor genuíno e sincero; não me refiro a máscaras sociais – sofrem de depressão e ansiedade, sentem uma tristeza inexplicável de vez em quando, precisam estar sempre ocupadas (muitas vezes com a vida do outro) porque estar no silêncio com a sua própria companhia é desconfortável ou mesmo desagradável.

Ainda poderão ter dificuldades em desenvolver o autoamor, tendo problemas com sua autoimagem, sua autoestima e autoconfiança, mesmo que não demonstrem a insegurança e a tristeza que está por traz de uma imagem socialmente construída para parecer estar sempre bem. Afinal, fomos ensinados a parecermos estar sempre bem, a anularmos nossos sentimentos quando não estamos nos melhores dias. Até hoje, observo que mesmo quando se fala que se está adoentado, sem condições de trabalhar naquele dia, isso ainda é visto como um problema para muitas empresas, como se não fosse possível ficar doente ou precisar de um tempo para se restabelecer.

Pense, assim, que o reconhecimento e a reconstrução dessa identidade é o mesmo que voltar a ter acesso a um poço de água limpíssimo, que vai ser responsável por nutrir você, seus projetos e seu propósito por uma vida inteira. Mas, por alguma razão, foi dito a você que ela não seria necessária, que você não iria precisar dela ou simplesmente que você não poderia bebê-la. Essa é uma das programações que rodam na “darkweb interior” dos modelos familiares e ditames da sociedade recebidos até hoje. Enquanto o despertar interior não acontece, os padrões se repetem e passam a existir abaixo do radar da nossa consciência.

REFLEXÃO INTERIOR (BRAINSTORMING)

Dentro desse cenário, deixo algumas perguntas para reflexão interna, para que você possa medir como está o seu termômetro interno relativo à manifestação da sua essência:

  • Onde, com quem e quando eu consegui ser quem realmente sou?
  • De onde vem os meus medos? O medo da rejeição e do abandono? Há alguma memória que está interconectada a eles? Essa memória pode ser sua ou até mesmo ligada aos seus pais. Observe a primeira imagem que vem à sua mente.
  • O que ou do que estou “me protegendo” quando não consigo me valorizar? A quem ou ao quê estou sendo leal? De onde vem essa lealdade invisível? (De uma crença, de um comportamento desenvolvido ou adquirido, de um condicionamento que trava ou limita?)
  • Eu ainda espero que algo mude, que alguém mude para me reconhecer?
  • O que eu espero para realizar as mudanças necessárias na minha vida? O que me faz esperar? É a insegurança, o medo, a dúvida? Por quê?
  • Qual o preço estou pagando e o que estou ganhando deixando de ser quem eu sou?

Às vezes, os ganhos parecem ser maiores e mais vantajosos quando deixamos de ser quem somos ou quando não somos fiéis e sinceros conosco em troca de status, fama, uma imagem ilibada criada nos meios e mídias sociais, bens materiais, um relacionamento falido mas confortável.

Vamos recordar do que Carl Jung dizia: tudo o que você nega, renega, reprime, evita e empurra para longe ou para baixo do tapete vai para o seu inconsciente e, um dia, volta com força total para que você não tenha mais desculpas para não olhar ou deixar de reconhecer. Pode ser um acidente, um burnout, uma doença, uma perda, algo impactante que vai obrigar você a se interiorizar. Quando se chega nesse ponto de profunda anulação de si – e menciono sem julgamentos, pois muitos necessitam de tempo para poder superar traumas e realizar todas as liberações emocionais necessárias para começar a sentir-se íntegro, inteiro e vivo novamente – é onde reside uma grande oportunidade de mudança. Mas, com ela, um buraco emocional ou mais de um já foi criado.

Chamo isso de “buraco negro emocional”, onde não há nutrição através da energia da essência, mas justamente o consumo desta energia essencial que deveria estar indo para a nutrição dos seus sonhos e projetos, assim como para você mesmo. Você carrega um buraco emocional interno e muitas vezes não imagina quanta energia ele consome. Muitos tendem a se anestesiar para não sentir, terreno fértil para todo tipo de excessos (drogas, álcool, libertinagem, contravenções ou mesmo desequilíbrios psicológicos dos mais diversos) que possam tirar você da responsabilidade de sentir, de se cuidar, de olhar para o que não está leve e bom. Por essa razão, acaba não conseguindo priorizar, manifestar, materializar e por fim, ser quem realmente é em essência, brilhando sem medo de ser quem é.

É claro que nem sempre vamos estar bem todos os dias, que muitas pessoas e situações vão ativar gatilhos de nossas experiências pregressas que não foram positivas ou boas. Mas, quando o alicerce da sua identidade é forte o suficiente dentro de você, quando você está sendo constantemente nutrido por essas raízes internas, essa base que construiu para si depois de muito trabalho interno, de autoanálise e autoconhecimento, se torna como o bambu: pode envergar com o vento, as tempestades, as intempéries da vida, até mesmo suportar furacões interiores, mas jamais irá quebrar.

Meu desejo sincero publicando este artigo é o de que essas palavras e reflexões também possam ressoar no seu coração, assim como já ressoaram no coração de muitos que chegam até mim buscando uma luz no fim do túnel, porque a alma não pede licença para existir, a psique sabe como se autoregular e a prosperidade está totalmente interligada, por ressonância, a um coração aberto para receber a vida e tudo o que, por direito divino, você merece neste momento da sua caminhada e jornada evolutiva.

Não importa em qual etapa deste caminho e dessa descoberta você está. Nunca é tarde para começar. Comece! Saia do lugar comum, da zona de conforto, do medo e da dúvida. Dê um passo em direção ao que você quer, ao que você deseja e que sabe que vai te fazer bem e feliz. Faça o que for preciso para realizar as mudanças necessárias. O que você busca já está te aguardando. Você só precisa permitir, abrir a porta e autorizar receber.

A alma sabe o caminho, o coração guia, e a mente e o emocional estão à serviço, são os seus soldados. Comece a exercitar ser a autoridade em seu mundo. Quando esse processo de honrar quem você é fica forte o bastante, quando você finalmente compreender o poder que reside na autorresponsabilidade e no autoamor, tudo o que antes era confortável, plausível de suportar ou de simplesmente deixar para depois, vai ficar extremamente desconfortável. Você vai perceber que já não cabe mais dentro daquela realidade. O seu antigo Eu não deixará de existir, mas ele vai pedir por uma nova versão, por um reboot your sistem.

É aí que o chamado vem com força, a necessidade de um salto de fé urge, e a perseverança e a coragem pedem para serem suas guardiãs inabaláveis à cada passo. O ponto de mutação chegou e você não terá mais como adiá-lo. Então, mãos à obra! Abra o seu armário interior, as gavetas ainda fechadas, as coisas antigas guardadas em lugares profundos que você esqueceu. Destralhe-se.

E busque ajuda sim, se preciso for. Crie sua rede de apoio com amigos, pessoas que você confia e que estimam você, profissionais que possam auxiliar você no seu processo de autoconhecimento e cura interior, mas siga. Evite acomodar-se num lugar onde a paz é morte. Já dizia o cantor da banda O Rappa: “Essa é a paz que eu não quero seguir, admitindo.” Vida é movimento! E o rio de águas limpas e verdejantes, que corre incólume nos lençóis freáticos do poço da sua essência, necessita do seu direcionamento para saber para onde desaguar e prosperar! Namaste! O Deus que habita em mim honra e reconhece o Deus que habita em você! Eu Vejo Você!

Por Luciane Strähuber – Consultora e Terapeuta Integrativa (Permissão para compartilhar respeitando os créditos da autora)

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